
Tinha chegado mais um Verão.
Nesta altura do ano ele sentia-se sempre nostálgico e com vontade de tirar cá para fora tudo aquilo que tinha preso dentro de si...
Mas no fundo, no meu entender, não havia mais nada a dizer. Mas ele insistia...insistia com o monólogo de sempre....que não havia dias em que não pensava no verniz vermelho e outros em que o cheiro do champô dela não lhe saía das narinas.
Arre...., mas quem é que fica com o cheiro de champô na memória????
Quando o meu telefone tocou eu sabia que era mais uma vez o meu amigo de longa data a querer partilhar comigo aqueles momentos de atrofia.
Pensei dizer-lhe que esta noite ele apenas deveria descontrair-se, e não fazer nada...deixar-se levar pelos "nãos pensamentos e pensar no zero".
Não há maneira de resolver um conflito quando há só uma parte a lutar por uma praia que há muito está deserta e que nem a flora quer continuar a nascer.
Não vale a pena, ... - pensei.
Sentei-me descontraída na varanda do meu apartamento, na minha cadeira azul escura, que comprei numas promoções daquelas lojas que tem coisas de decoração girissimas.
Ouvia-o muito longe, e ao mesmo tempo sentia mais uma vez em mim o vazio de não conseguir transmitir aquilo que era óbvio e racional.
Acendi um cigarro, de uma nova marca trazida de Nova Iorque por uma amiga que foi até lá em busca do sonho americano ....acabou por trazer um filho nos braços e um marido polaco.
Histórias de vida que eu acho que são exemplo de pinceladas que por vezes fazemos em noites frias de inverno e depois de tantas juras que tudo irá correr bem, e conforme aquilo que planeamos, sai tudo de maneira diferente como iluminamos!
Et voilá...depois chegamos ao Verão e tudo é bem diferente.....
Eu assumo que gosto de pintar quadros como o Dali na minha vida, mas sinceramente por vezes na realidade não passam de meros rabiscos em blocos pretos de imitação daquela marca conhecida começada por T.
Desejar é bom, realmente não há nada melhor que desejar....
Hasta!
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