20.2.18

Folha Verdejante

Tinha que a deixar partir, uma vez mais.

Era imperativo, uma vez que a amava incondicionalmente.

Via que pouco ou não conseguia fazer, pois não queria ser um pai para ela, mas sim um companheiro de vida.

O percurso era dela, as decisões teriam que ser dela, ele apenas estaria presente para fazer o caminho junto dela.

Era isso, porque a amava tinha que a libertar.

Deixar que saísse de casa, uma vez mais, com a mochila às costas e deixá-la ir para onde ela precisava de ir.

Ele continuaria ali, no seu caminho, mas na certeza que o melhor teria feito e dito, porque simplesmente a amava.

Sem mágoa, sem dor, sabia que a imensidão do amor que sentia por ela, o faria ainda melhor pessoa do que já foi e é.

- "Não é para todos" - cantou o estorninho.

- "Pois não, apenas para quem ama com o coração e tem a capacidade de se amar e de conseguir ver para além do que é visível".

Muito mais simples do que parece...e assim voou a folha verdejante...

13.2.18

Letra

Insistia em esperar por ela.

O estorninho dizia-lhe para que ouvisse o coração e para deixar claro na mente aquilo que queria, uma vez que os pensamentos materializam aquilo que queremos.

Ele não ouvia o estorninho.

Insistia em querer subir a montanha sem reforços sentimentais e sem esperança.

Levava lamentos, o passado e pouca água.

- Assim não conseguirás - dizia o estorninho.

Ele, homem robusto, de pouca paciência, não o ouvia.

Fingia que não havia nada, pensava só que tinha chegado o fim e que não havia mais nenhum motivo para continuar a sua viagem.

O pior é que só pensava nela.
Havia um motivo, neste e noutros mundos, pensava.

Sabia que ela tinha crescido com um encanto diferente de todas as mulheres que ele um dia tinha conhecido.

Tinha a certeza que era a tal...mas para isso ela precisava de deixar as sensações passageiras que só continuavam a dar-lhe dor.

Recebeu uma sms dela, abriu a mesma e quando visualizou era uma letra de uma música...sem mais nada.

"Quando tu apareceste Eu estava esquecida Nos perdidos e achados da vida. Mas sentia-me bem Com a cabeça arrumada Não sentia falta de nada. Avisei-te à partida Que a haver algo entre nós Era melhor ter cuidado. Queria viver o presente Queria esquecer o passado. Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Quando tu apareceste Eu estava a sair Dos perdidos e achados da dor. E sentia-me bem Com o corpo a descansar Dos altos e baixos do amor. Avisei-te á partida Que um caso entre nós Era sempre perigoso. O meu passado recente Tinha sido doloroso. Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora!..."

O estorninho voou e ele foi buscar água.


12.2.18

Sons confusos

O estorninho estava cansado.

Apesar disso, insistia pronunciar o seu som característico sempre que a avistava.

Ela ria e viajava pelo passado dos momentos vividos e partilhados.

Ele fechava os olhos e pensava como é que ainda esperava por ela.

Foi riscando os dias, as noites e tinha a consciência sentida que ainda esperava por ela, porque a amava sem limites, apesar de tudo.

Tudo porque apesar de ser homem, continuava a sentir as borboletas e o seu perfume inconfundível sempre que andava a pé sem destino nas noites de luar.

Tentava ser racional, mas aquele som levava-o para lugares onde se sentia protegido e acolhido.

Conseguia congelar cada som e sentimento que o tinham transposto para realidades onde nunca ninguém o tinha levado antes.

Só queria que ela fosse o que realmente é, só gostava que ela deixasse de uma vez por todas as amarras que a prendiam a momentos tóxicos para ambos.

Queria permanecer e regressar, noite após noite ao local onde ambos são felizes e ficar ali!

O estorninho aparecia novamente assim...ficava parado por segundos e voava...

Assim...assim...fica confuso - pensava ele. 


1.2.18

Colorir

 - " Pega neste caderno, lê estas minhas palavras, já que estás cansada." - disse ele.

"Que eu seja o teu bem e tu o meu bem neste universo estrelado que surgiu na escuridão...

E que as pinceladas de cores primárias, mágicas, quentes e frias que diariamente utilizamos nos quadros que pintamos, eternizem a nossa amizade, o nosso amor, empenho, dedicação e obrigação.

Porque a vida é assim, feita de encontros e desencontros, de sons de cheiros.
Quero eternizar este tempo que tanto me faz bem.
Que tanto te faz bem a ti.

Há loucura de palavras de gestos e de tempos entre nós.
Começo a saber de cor o teu olhar, os teus gestos de ansiedade, bem como de excitação e de carinho.

Quero que fiques, bem perto, que permaneças neste mundo que era apenas meu, que estava fechado, que lentamente se vai abrindo...
Ilusões?..Não...meras vidas, colocar na balança? Tudo ou nada? Imaginar o real..Não há nada e há tanto!
Sabes, há poupas que cantam de manhã para mim, e há sol que me aquece interiormente, sinto que estás. E é isto com, ou sem ponto.

Sei que é um sítio onde eu vou e permaneço, cada vez com mais vontade, pois tudo o que me faz doer, fica liberto com o teu simples olhar.
É um lavar de coração em que me fazes ver que estás lá e que esta vida é mais simples do que pensamos, tudo tem uma explicação.

Em tudo há arte, literatura, música e pensamento.
Há razão, mas há coração.
E que não é ilusão querer ser feliz, e que não é ilusão sorrir e acreditar que os anjos existem e que o pôr do sol tem efectivamente beleza quando é admirado sem mais qualquer substância que não seja o teu ser, e o meu ser.

Grato porque a vida me colocou em dúvida, em dor, em escuridão e hoje quando fecho os olhos e as lágrimas caem, estas são diferentes , são de sabedoria, de amor, de alegria porque ressuscitei, porque simplesmente acreditei que há sempre um jardim para nós.

É preciso cuidar, é preciso deixar entrar no íntimo de cada um e tirar o melhor de nós.

Posto isto, vou deixar-te desvendar cada milímetro do meu eu, quanto a ti, deixa-me existir num espaço, novo, quente, deixa-me cuidar, de corpo e alma o teu ser, pois eu olho e vejo te a caber dentro de tudo: dos sonhos e da realidade.

Há muito chão para andar e eu seu que contigo eu vou conseguir guardar-te bem durante este caminho, nosso, com todos.

Em summa: há uma praia depois da sombra, que dá para estas coisas, que traz palavras escondidas com a natureza. Palavras que penetram na mente e no corpo de uma forma confortante e penetrante que eu sei que ficarão para todo o sempre,
E é isto, que não é nada mas que é mais que muito."


Leu, e no final perguntou, - "Mas o que é isto?"  - Ele respondeu que ela lhe tinha pedido para colocar no papel aquilo que queria, e o que não queria.

Respondeu-lhe que aquilo não era morrer de amor, mas sim morrer com o amor, com a certeza de que assim jamais iria respirar sozinho, mas com ela.

Ele fixou-a nos olhos e sorriu. Levantou-se e deu-lhe um abraço. O estorninho voou.