1.3.18

Bombordo

O estorninho insistia para ele perceber que nem tudo era estanque..

 - "Não sejas assim tão teimoso, quando ela quer dançar ao som da lua, tu dança pah!

Mas ele continuava a ver os olhos dela, completamente distantes e com imagens desfocadas.

Gritava para dentro, queria deixar de estar encostado à parede, apesar de sentir um mar imenso a entrar dentro da sua alma!

Inundado se encontrava, mas a sensação de bombordo fazia-o sonhar uma vez mais.

Sabia que tinha encontro marcado com ela, mas não sabia se aquilo que tinham tido em comum era suficiente para não crispar um encontro onde tudo poderia acontecer.

Era resistente, mas sentia-se frágil, quando o assunto se resumia aquele ser, tão belo e inquietante!

Resolveu cantar, sair porta fora e envolver-se na chuva...



20.2.18

Folha Verdejante

Tinha que a deixar partir, uma vez mais.

Era imperativo, uma vez que a amava incondicionalmente.

Via que pouco ou não conseguia fazer, pois não queria ser um pai para ela, mas sim um companheiro de vida.

O percurso era dela, as decisões teriam que ser dela, ele apenas estaria presente para fazer o caminho junto dela.

Era isso, porque a amava tinha que a libertar.

Deixar que saísse de casa, uma vez mais, com a mochila às costas e deixá-la ir para onde ela precisava de ir.

Ele continuaria ali, no seu caminho, mas na certeza que o melhor teria feito e dito, porque simplesmente a amava.

Sem mágoa, sem dor, sabia que a imensidão do amor que sentia por ela, o faria ainda melhor pessoa do que já foi e é.

- "Não é para todos" - cantou o estorninho.

- "Pois não, apenas para quem ama com o coração e tem a capacidade de se amar e de conseguir ver para além do que é visível".

Muito mais simples do que parece...e assim voou a folha verdejante...

13.2.18

Letra

Insistia em esperar por ela.

O estorninho dizia-lhe para que ouvisse o coração e para deixar claro na mente aquilo que queria, uma vez que os pensamentos materializam aquilo que queremos.

Ele não ouvia o estorninho.

Insistia em querer subir a montanha sem reforços sentimentais e sem esperança.

Levava lamentos, o passado e pouca água.

- Assim não conseguirás - dizia o estorninho.

Ele, homem robusto, de pouca paciência, não o ouvia.

Fingia que não havia nada, pensava só que tinha chegado o fim e que não havia mais nenhum motivo para continuar a sua viagem.

O pior é que só pensava nela.
Havia um motivo, neste e noutros mundos, pensava.

Sabia que ela tinha crescido com um encanto diferente de todas as mulheres que ele um dia tinha conhecido.

Tinha a certeza que era a tal...mas para isso ela precisava de deixar as sensações passageiras que só continuavam a dar-lhe dor.

Recebeu uma sms dela, abriu a mesma e quando visualizou era uma letra de uma música...sem mais nada.

"Quando tu apareceste Eu estava esquecida Nos perdidos e achados da vida. Mas sentia-me bem Com a cabeça arrumada Não sentia falta de nada. Avisei-te à partida Que a haver algo entre nós Era melhor ter cuidado. Queria viver o presente Queria esquecer o passado. Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Quando tu apareceste Eu estava a sair Dos perdidos e achados da dor. E sentia-me bem Com o corpo a descansar Dos altos e baixos do amor. Avisei-te á partida Que um caso entre nós Era sempre perigoso. O meu passado recente Tinha sido doloroso. Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora! Portanto não me acuses da dor Que dizes sentir agora! Deixa-me só no meu canto, A vida segue lá fora!..."

O estorninho voou e ele foi buscar água.


12.2.18

Sons confusos

O estorninho estava cansado.

Apesar disso, insistia pronunciar o seu som característico sempre que a avistava.

Ela ria e viajava pelo passado dos momentos vividos e partilhados.

Ele fechava os olhos e pensava como é que ainda esperava por ela.

Foi riscando os dias, as noites e tinha a consciência sentida que ainda esperava por ela, porque a amava sem limites, apesar de tudo.

Tudo porque apesar de ser homem, continuava a sentir as borboletas e o seu perfume inconfundível sempre que andava a pé sem destino nas noites de luar.

Tentava ser racional, mas aquele som levava-o para lugares onde se sentia protegido e acolhido.

Conseguia congelar cada som e sentimento que o tinham transposto para realidades onde nunca ninguém o tinha levado antes.

Só queria que ela fosse o que realmente é, só gostava que ela deixasse de uma vez por todas as amarras que a prendiam a momentos tóxicos para ambos.

Queria permanecer e regressar, noite após noite ao local onde ambos são felizes e ficar ali!

O estorninho aparecia novamente assim...ficava parado por segundos e voava...

Assim...assim...fica confuso - pensava ele. 


1.2.18

Colorir

 - " Pega neste caderno, lê estas minhas palavras, já que estás cansada." - disse ele.

"Que eu seja o teu bem e tu o meu bem neste universo estrelado que surgiu na escuridão...

E que as pinceladas de cores primárias, mágicas, quentes e frias que diariamente utilizamos nos quadros que pintamos, eternizem a nossa amizade, o nosso amor, empenho, dedicação e obrigação.

Porque a vida é assim, feita de encontros e desencontros, de sons de cheiros.
Quero eternizar este tempo que tanto me faz bem.
Que tanto te faz bem a ti.

Há loucura de palavras de gestos e de tempos entre nós.
Começo a saber de cor o teu olhar, os teus gestos de ansiedade, bem como de excitação e de carinho.

Quero que fiques, bem perto, que permaneças neste mundo que era apenas meu, que estava fechado, que lentamente se vai abrindo...
Ilusões?..Não...meras vidas, colocar na balança? Tudo ou nada? Imaginar o real..Não há nada e há tanto!
Sabes, há poupas que cantam de manhã para mim, e há sol que me aquece interiormente, sinto que estás. E é isto com, ou sem ponto.

Sei que é um sítio onde eu vou e permaneço, cada vez com mais vontade, pois tudo o que me faz doer, fica liberto com o teu simples olhar.
É um lavar de coração em que me fazes ver que estás lá e que esta vida é mais simples do que pensamos, tudo tem uma explicação.

Em tudo há arte, literatura, música e pensamento.
Há razão, mas há coração.
E que não é ilusão querer ser feliz, e que não é ilusão sorrir e acreditar que os anjos existem e que o pôr do sol tem efectivamente beleza quando é admirado sem mais qualquer substância que não seja o teu ser, e o meu ser.

Grato porque a vida me colocou em dúvida, em dor, em escuridão e hoje quando fecho os olhos e as lágrimas caem, estas são diferentes , são de sabedoria, de amor, de alegria porque ressuscitei, porque simplesmente acreditei que há sempre um jardim para nós.

É preciso cuidar, é preciso deixar entrar no íntimo de cada um e tirar o melhor de nós.

Posto isto, vou deixar-te desvendar cada milímetro do meu eu, quanto a ti, deixa-me existir num espaço, novo, quente, deixa-me cuidar, de corpo e alma o teu ser, pois eu olho e vejo te a caber dentro de tudo: dos sonhos e da realidade.

Há muito chão para andar e eu seu que contigo eu vou conseguir guardar-te bem durante este caminho, nosso, com todos.

Em summa: há uma praia depois da sombra, que dá para estas coisas, que traz palavras escondidas com a natureza. Palavras que penetram na mente e no corpo de uma forma confortante e penetrante que eu sei que ficarão para todo o sempre,
E é isto, que não é nada mas que é mais que muito."


Leu, e no final perguntou, - "Mas o que é isto?"  - Ele respondeu que ela lhe tinha pedido para colocar no papel aquilo que queria, e o que não queria.

Respondeu-lhe que aquilo não era morrer de amor, mas sim morrer com o amor, com a certeza de que assim jamais iria respirar sozinho, mas com ela.

Ele fixou-a nos olhos e sorriu. Levantou-se e deu-lhe um abraço. O estorninho voou.

30.1.18

Caminhos, sinais e indefinições...

- "E se tivesses o poder de voltar atrás e de reviver ? O que farias?"...

Pediu-lhe para o levar para para lá, ou para onde ela quisesse!

Afirmava com o cigarro na mão direita que não queria cair novamente, queria sentir-se de novo o puto de vinte anos que acordava sempre com uma energia ilimitada!

Ela riu-se e lembrou-o que a vida apesar de serem os tais dois dias que toda a humanidade faz questão de relembrar diariamente em períodos de stress e de mudanças, cabia a cada um de nós evoluir ou não.

Não valeria a pena andar com rodeios, a culpar terceiros, nem tão pouco se refugiar no álcool e em comprimidos para aliviar os caminhos por si traçados.

Tinham existido sinais que ele certamente visualizou e que os mesmos teriam os devidos destinos. Optou, e a opção é sinal de dualidades ou não.

- "O caminho faz-se caminhando", disse-lhe ela.

Ele mexeu-se na cadeira e descruzou as pernas. Pediu mais uma cerveja e uns amendoins.

A conversa iria prolongar-se mas o estorninho estava cansado e queria recolher...



29.1.18

Estorninho...

Anos passaram e nunca mais soube nada dele.

Sentia um vazio intenso por ter perdido as amarras a uma história que seria a mais bela de todas, nesta vida onde o sol e a lua se cruzam.

Na certeza que os dias iriam continuar como sempre, lembrou-se de transpor o real e conectar-se com aquilo que considera que é a essência do ser humano.

A cara de laranja tinha conhecido um estorninho em plena primavera.

Numa noite amena, começou a ouvir o seu belo chilrear e riu-se.

Há muito que não ouvia uma melodia tão bela e certeira.

Deixou-se envolver nas suas asas e começou a voar sem destino.

O seu bico amarelo, por vezes confundido com o do melro, levou-a para lugares desconhecidos, mas encantados.

As noites passaram a ser dia e as manhãs passaram a prolongar a luminosidade que trazia dessas noites.

Numa dessas noites reencontrou-o.

Não queria acreditar que numa noite de neblina ele estava ali, sentado a beber uma cerveja e a fumar o seu cigarro.
Estava igual a ele mesmo. Olhar distante, perna cruzada e com o seu casaco da Gant azul escuro.
Mais velho, grisalho e com os óculos de massa preta, mantinha a mesma postura de há dez anos.
Estava sozinho.

Aproximou-se com o estorninho.

Fixou-a e disse: " Por onde andaste? Preciso de ti... senta-te aqui, tenho muito para te contar...".