29.1.18

Estorninho...

Anos passaram e nunca mais soube nada dele.

Sentia um vazio intenso por ter perdido as amarras a uma história que seria a mais bela de todas, nesta vida onde o sol e a lua se cruzam.

Na certeza que os dias iriam continuar como sempre, lembrou-se de transpor o real e conectar-se com aquilo que considera que é a essência do ser humano.

A cara de laranja tinha conhecido um estorninho em plena primavera.

Numa noite amena, começou a ouvir o seu belo chilrear e riu-se.

Há muito que não ouvia uma melodia tão bela e certeira.

Deixou-se envolver nas suas asas e começou a voar sem destino.

O seu bico amarelo, por vezes confundido com o do melro, levou-a para lugares desconhecidos, mas encantados.

As noites passaram a ser dia e as manhãs passaram a prolongar a luminosidade que trazia dessas noites.

Numa dessas noites reencontrou-o.

Não queria acreditar que numa noite de neblina ele estava ali, sentado a beber uma cerveja e a fumar o seu cigarro.
Estava igual a ele mesmo. Olhar distante, perna cruzada e com o seu casaco da Gant azul escuro.
Mais velho, grisalho e com os óculos de massa preta, mantinha a mesma postura de há dez anos.
Estava sozinho.

Aproximou-se com o estorninho.

Fixou-a e disse: " Por onde andaste? Preciso de ti... senta-te aqui, tenho muito para te contar...".

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