1.2.18

Colorir

 - " Pega neste caderno, lê estas minhas palavras, já que estás cansada." - disse ele.

"Que eu seja o teu bem e tu o meu bem neste universo estrelado que surgiu na escuridão...

E que as pinceladas de cores primárias, mágicas, quentes e frias que diariamente utilizamos nos quadros que pintamos, eternizem a nossa amizade, o nosso amor, empenho, dedicação e obrigação.

Porque a vida é assim, feita de encontros e desencontros, de sons de cheiros.
Quero eternizar este tempo que tanto me faz bem.
Que tanto te faz bem a ti.

Há loucura de palavras de gestos e de tempos entre nós.
Começo a saber de cor o teu olhar, os teus gestos de ansiedade, bem como de excitação e de carinho.

Quero que fiques, bem perto, que permaneças neste mundo que era apenas meu, que estava fechado, que lentamente se vai abrindo...
Ilusões?..Não...meras vidas, colocar na balança? Tudo ou nada? Imaginar o real..Não há nada e há tanto!
Sabes, há poupas que cantam de manhã para mim, e há sol que me aquece interiormente, sinto que estás. E é isto com, ou sem ponto.

Sei que é um sítio onde eu vou e permaneço, cada vez com mais vontade, pois tudo o que me faz doer, fica liberto com o teu simples olhar.
É um lavar de coração em que me fazes ver que estás lá e que esta vida é mais simples do que pensamos, tudo tem uma explicação.

Em tudo há arte, literatura, música e pensamento.
Há razão, mas há coração.
E que não é ilusão querer ser feliz, e que não é ilusão sorrir e acreditar que os anjos existem e que o pôr do sol tem efectivamente beleza quando é admirado sem mais qualquer substância que não seja o teu ser, e o meu ser.

Grato porque a vida me colocou em dúvida, em dor, em escuridão e hoje quando fecho os olhos e as lágrimas caem, estas são diferentes , são de sabedoria, de amor, de alegria porque ressuscitei, porque simplesmente acreditei que há sempre um jardim para nós.

É preciso cuidar, é preciso deixar entrar no íntimo de cada um e tirar o melhor de nós.

Posto isto, vou deixar-te desvendar cada milímetro do meu eu, quanto a ti, deixa-me existir num espaço, novo, quente, deixa-me cuidar, de corpo e alma o teu ser, pois eu olho e vejo te a caber dentro de tudo: dos sonhos e da realidade.

Há muito chão para andar e eu seu que contigo eu vou conseguir guardar-te bem durante este caminho, nosso, com todos.

Em summa: há uma praia depois da sombra, que dá para estas coisas, que traz palavras escondidas com a natureza. Palavras que penetram na mente e no corpo de uma forma confortante e penetrante que eu sei que ficarão para todo o sempre,
E é isto, que não é nada mas que é mais que muito."


Leu, e no final perguntou, - "Mas o que é isto?"  - Ele respondeu que ela lhe tinha pedido para colocar no papel aquilo que queria, e o que não queria.

Respondeu-lhe que aquilo não era morrer de amor, mas sim morrer com o amor, com a certeza de que assim jamais iria respirar sozinho, mas com ela.

Ele fixou-a nos olhos e sorriu. Levantou-se e deu-lhe um abraço. O estorninho voou.

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